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ENTREVISTA – PAIS PREFEREM CULTIVAR AFETIVIDADE NO POUCO TEMPO QUE PASSAM COM SEUS FILHOS

A autoridade na relação com os filhos não deve ser imposta, é um processo de construção

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Roberto Fernandes Tamashiro é psicólogo formado pela Universidade de Cuiabá e especialista em atendimento clínico. Sua trajetória até chegar a psicologia foi um tanto diferente do convencional.

Roberto foi seminarista por dois anos e estudou a fundo filosofia e teologia. Foram esses estudos que chamaram a atenção dele para o comportamento humano e o fizeram perceber que o desejo de ser padre não foi suficiente diante das limitações que tal estilo de vida propõe.

Hoje ele se diz apaixonado pela psicologia e não se ve fazendo outra coisa na vida. Seu consultório é movimentado e Roberto já está famoso por atender jovens e adolescentes. Ele explica essa característica pelo fato de “surgir uma tendência atual de cada vez mais os pais delegarem a função paterna e materna para as instituições escolares como para os profissionais que exercem atividades de saúde mental”.

Na entrevista ele fala sobre a relação de autoridade dos pais, sobre os limites, sobre a vida moderna e a falta de tempo dos pais para se relacionarem com os filhos.

Ainda na infância, como deve ser imposta a autoridade dos pais?

É interessante notar que hoje realmente os pais têm se preocupado de maneira mais afetiva e efetiva diante dessa temática da ‘Autoridade’. Essa preocupação tem se tornado mais comum em nossos dias onde os pais têm se tornado mais ausentes por conta das atividades que exercem fora de casa, ou pelo menos, assim eles têm acreditado. Mais tempo para o trabalho tem significado, para eles, menos tempo para os filhos. Logo, temos a seguinte interrogação: ‘Como posso ter o direito de querer que o filho me respeite, me ouça, me obedeça, enfim, me veja como uma ‘autoridade’ se não passo o tempo devido com ele?’. Sempre acreditei ser uma interrogação um tanto quanto ‘mesquinha’ já que o tempo não deve ser uma convenção que vai contra os pais, mas algo que está favor deles, mesmo que, por uma razão ou outra, assim eles não o percebam. ‘Quanto tempo se demora para construir uma canoa?Bem, depende do quanto você gosta de pescar…’ Este é um ditado que representa e ilustra que o problema já não é o tempo, mas o desejo de se estar com um filho. Nesse sentido, reconheço como autoridade a capacidade que os pais têm, conjuntamente, de transmitir aos seus filhos a necessidade de respeitar, reconhecer os limites e, principalmente, as conseqüências de cada ato. Com isso quero sustentar que autoridade não é algo que se impõe a alguém, como seria o caso do autoritarismo, mas algo que se transmite dos pais para os seus filhos. A infância é o período onde a criança vive experiências significativas na sua vida pessoal e social. Isso significa que é na infância onde percebemos os primeiros sinais de sua capacidade de elaboração dos valores e símbolos presentes no espaço onde atua. As construções subjetivas (internas, construções próprias do sujeito) resultam desse processo de internalização desses valores e símbolos que, por fim, possibilitará a criança uma inserção no mundo social. Ora, isso significa que, apresentar a autoridade para a criança é, antes de tudo, para os pais, uma convocação do reconhecimento de sua função (paterna e/ ou materna) diante de seus filhos. O problema, penso eu, não é o tempo que falta da presença desses pais diante de seus filhos, mas o tanto quanto esses mesmos pais são capazes de reconhecer a sua própria função (de pais), apesar da dita distância e ausência.

Existe uma idade específica para que as regras comecem a ser impostas?bronca

Tenho percebido, via atendimento clínico com os pais, que essa pergunta tem insistido como uma espécie de demanda familiar comum. Sempre vejo por detrás dessa pergunta um anseio quase que pedagógico dos pais para se ‘prevenirem’ das vicissitudes familiares entre eles e seus filhos. Bem, o que se deve deixar claro é que quando falamos de vida afetiva e emocional, nem sempre estamos retratando uma similaridade com a vida histórica do sujeito. Nesse sentido quero partir do ponto que o tempo cronológico não coincide com o tempo psicológico. Se percebemos de maneira sensível a nossa vida familiar em seu início veremos que as regras são apresentadas desde uma primeira interrogação do casal: ‘então, o que acha de termos um filho?’. Neste instante, surge já nos futuros pais uma exigência de mudança de hábitos e costumes dentro de casa, surgem novas regras que preparam a vinda do futuro bebê. Com o nascimento do filho(a), essas exigências se tornam cada vez mais concretas e objetivas. A criança nasce em meio a essas ‘regras prévias’. De qualquer modo as regras que até então eram intrínsecas ao casal (ou seja, voltadas somente para eles), vão se tornando cada vez mais extrínsecas, no sentido de que algo já começa a ser transmitido dos pais para os filhos. Cabe aos pais perceberem a dinâmica na qual seu filho(a) se desenvolve para, então, apresentar regras mais específicas, ou seja, aquelas vinculadas a uma determinada situação. Via de regra, com a inserção da linguagem na criança, por volta dos dois (2) anos de idade, a criança já é capaz de ‘entender’ e tomar vantagem das situações que lhe favorecem. Psicologicamente entende-se que a aquisição da linguagem no sujeito vem significar que o mesmo já se encontra inserido num contexto simbólico, ou seja, num mundo de símbolos e representações que necessitam de significação (sentido). Isso significa que, quantitativamente falando, seria um momento em que a criança já seria capaz de internalizar as regras e os limites provenientes do mundo externo.

É possível uma criança que não teve limites durante a infância, respeitar os limites impostos pelos pais quando chegam à adolescência?

A vida humana é como uma estrada. Para que ela exista seria necessário a existência das linhas que fazem surgir as bordas, no caso das estradas, os acostamentos. Sem as bordas o que temos é um espaço se sentido, sem orientação e, ainda, sem direção. As bordas são os limites que, mesmo que não o reconhecemos, estão lá, sempre presentes. Segundo as estórias de super-heróis, até o superman tem um limite: a criptonita. Penso não existir crianças, adolescentes, adultos ou idosos sem limites. O que existe é um sujeito que, por alguma razão, não quer reconhecê-los. Em se tratando de uma criança que supostamente não reconheceu seus limites na infância, por causa das falhas paternas e/ ou maternas, isso não vem significar uma condenação dessa criança para a sociopatia. O que pode surgir são inquietações que podem levar essa criança a ter dificuldade de adaptação e adequação nos eixos que envolvem a vida social. Digo isso porque se pegarmos hipoteticamente uma criança ‘com limites’, mesmo essa criança viverá na adolescência conflitos que são específicos da adolescência. Todo adolescente vive suas crises ditas existenciais, porém nem toda crise existencial leva a um distúrbio psíquico na adolescência. O que ocorre na adolescência tem suas relações sim com a vida infantil, mas não de maneira radical. Existem crianças ‘bem-educadas’ que chegam à adolescência e se transformam em ‘garoto(a)-problema’ e, o oposto também, crianças ‘mal-educadas e desobedientes’ que passam uma adolescência sem grandes problemas. Temos como centro, novamente, a forma como os pais se comportam diante de seus filhos na vida infantil e na adolescência. Entendam que a criança depende e necessita de tudo aquilo que na adolescência o sujeito não quer: regras, limites, organização e a atenção dos pais.

Qual é a importância do diálogo na relação entre pais e filhos?

bronca2 Bem, considerando tudo o que temos falado aqui a respeito do que ocorre com a criança em sua relação com os pais, insisto que, se tudo começa nesse primeiro núcleo social que é a família, existe algo nela que pode produzir os seus efeitos tanto nos filhos quanto nos pais. É fato que assim como os pais buscam o auxílio de outros pais para tentarem resolver suas inquietações, da mesma maneira vemos claramente a busca incessante dos filhos em buscar ajuda com os seus amigos e grupos com os quais se idenficam. Digo isso porque tem surgido uma tendência atual de cada vez mais os pais delegarem a função paterna e materna para as instituições escolares como para os profissionais que exercem atividades de saúde mental. De outro lado temos os filhos que já não tem enxergado nos pais uma fonte de confiança e segurança para determinadas conversas como sexo, aspiração profissional, sofrimento pessoal, entre outros. Mesmo com a mudança significativa desse cenário, vejo que o diálogo como único elemento capaz de produzir expressões que nos faz entender e sermos entendidos pelo outro. Se isto tem sido diluído de maneira significativa nos tempos atuais é porque diz muito mais da nossa ‘mudez afetiva familiar’ do que propriamente uma posição fecunda para uma nova forma de posicionamento dos núcleos parentais.

Até que ponto os pais devem preservar a privacidade e o poder de escolha dos filhos?

Vejo que essa é uma pergunta que se apresenta, antes de tudo, como um desafio tanto para os pais quanto para os filhos. Tudo o que fazemos supõe a presença de uma organização mínima com suas regras, limites, regulamentos, direitos e deveres. Se algo não for cumprido por alguma parte ou pessoa o todo organizado é prejudicado. Quando somos capazes de reconhecer com distinção a nossa função e de sermos capazes de sustentar aquilo pelo que nos propomos viver e fazer não ocorreria a preocupação com a preservação dos espaços de cada um já que o foco não é o eu, mas o todo organizado. De qualquer forma se essa pergunta é feita é porque nos ocorre o reconhecimento de que algo não caminha bem no campo da dinâmica entre os pais e os filhos no que diz respeito à privacidade e as escolhas desses últimos. Realmente existem pais extremamente ansiosos que não dão conta de sustentar o fato de que os filhos cresceram e precisam seguir alguns passos sozinhos mesmo que ‘batam a cabeça’; existem pais permissivos de forma demasiada de tal forma que não conseguem transmitir a ‘borda’ a ‘linha’ que da sentido ao caminho. Levo em consideração esses dois extremos. De um lado os pais extremamente controladores e ansiosos e, de outro, pais demasiadamente ansiosos. Os primeiros sofrem de insônia; os segundos, de excesso de sono. Os primeiros criam crianças; os segundos, não criam nada. Possivelmente os primeiros nunca tiveram bicho de estimação; os segundos, mataram os seus. Esse jogadilho irônico nos serve para transmitir que nunca vai haver conciliação possível entre pais e filhos se partirmos desses dois extremos. A pergunta se torna estéril de resposta. Existe um dito popular que diz que devemos ceder para poder avançar. Neste caso, aqui, nos cabe muito bem. Entrar na particularidade de alguém supõe, antes, uma identificação e confiança que funcionem como tecido que rege o relacionamento. Confiança não se pede, mas se cultiva.

Elisa Cortes

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4 Comentários para este artigo

  1. Antonio José Escreveu:
    Matéria muito boa, parabéns.
  2. Leonardo Escreveu:
    matéria muito legal parabén!!
  3. myllena Escreveu:
    eu estou pesquisando sobre a relação sobre pais e filhos para um trabalho escolar e essa matéria me ajudou bastante tem assuntos muito importantes para quem quer falar sobre pais e filhos, muito boa matéria.
  4. luciana Escreveu:
    Gostei muito da matéria, muitas vezes os pais se culpam por não ter tempo para os filhos, mas na verdade o q falta é o interesse por eles. obrigada.

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